Introdução
Sabem como se chamava o primeiro filho de Caim? Qual foi o nome da
primeira cidade do mundo? Quem foi o filho de Jared? Como se chamou o pai de
Matusalém? Sabem que a resposta a estas perguntas é apenas uma? Enoque...
Talvez já não se lembrassem, ou nunca tivessem reparado, mas houve
pelo menos dois homens chamados Enoque na Bíblia.
Uma vista de olhos rápida pelo texto bíblico permite-nos ver algumas
diferenças entre estes dois homens, que tinham em comum o mesmo nome, mas vidas
diametralmente opostas.
Enoque filho de Caim
O primeiro filho de Caim recebeu o nome de Enoque que significava
iniciado, dedicado. Não sabemos por que razão os seus pais lhe deram este
nome, mas tenho dificuldade em acreditar que tivessem qualquer motivação
piedosa. Na verdade, vamos ver que todas as decisões que Caim tomou eram, de
alguma forma, uma demonstração da sua rebeldia contra Deus.
Apesar de Deus lhe ter prometido que não sofreria vingança pelo
assassinato do seu irmão Abel, ainda assim ele vai entrincheirar-se atrás das
muralhas de uma cidade construída por si mesmo. Esta cidade, a que ele deu
o nome de Enoque, como homenagem ao seu primeiro filho, parece ter-se tornado
um monumento à rebelião contra o Senhor.
Num claro desafio à garantia divina, o primogénito de Adão vai tratar
de contrariar a maldição de Deus, "fugitivo e vagabundo serás na
terra" (Gén. 4:12).
Numa rebelde e desesperada tentativa de 'desmentir' Deus, Caim acaba
por fixar-se num determinado local. Assim surge a primeira cidade, berço de
infames pecados e vícios, esconderijo de imoralidade e desafecto. O facto de
Caim morar numa casa, não tornava menos miserável a sua existência. Embora tivesse
abdicado do nomadismo, vivia ainda como eterno fugitivo de uma consciência
culpada, ou como flagelado de um coração sem paz! Enoque, o filho de Caim,
recebeu do pai um legado de rebelião contra Deus. Ao longo da vida este homem
perpetuará estes mesmos valores às gerações seguintes.
A Bíblia diz: "A Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e
Meujael gerou a Metusael, e Metusael gerou a Lameque" (Gén. 4:18).
Note o significado dos nomes dos descendentes deste homem. O seu filho
chamou-se Irade, que significa fugitivo. Por sua
vez, Irade vai dar o nome de 'ferido por Deus' ao seu
filho Meujael.
Além de parecer que estes homens não tinham uma relação muito feliz
com a paternidade, eles possuíam ainda o péssimo hábito de transferir para os
filhos todas as mágoas que nutriam contra Deus.
Imaginem os sentimentos com que cresceu o pequeno Irade. Cada vez que
era chamado pelos pais, recordava-se que ele também era um eterno fugitivo do
mesmo Deus que amaldiçoara o seu avô Caim!
Ou então pensem no jovem Meujael, que desde tenra idade assume o
complexo de ser um ferido de Deus, um enjeitado do favor divino!
Nas gerações seguintes apareceram um assassino sem consciência, o
primeiro polígamo da história e possivelmente muitos outros problemas que muito
sofrimento devem ter trazido ao coração de Adão e Eva!
Enoque filho de Jarede
Sobre o mais famoso dos Enoques, a Bíblia diz o seguinte:
"Jarede viveu cento e sessenta e dois anos, e gerou a Enoque.
Viveu Jarede, depois que gerou a Enoque, oitocentos anos; e gerou filhos e
filhas. Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e
morreu. Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. Andou Enoque
com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos; e gerou filhos e
filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos; Enoque
andou com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus o tomou" (Gén. 5:18 a 22).
Este segundo Enoque, aquele que vai ficar mais conhecido na História,
tem uma trajectória de vida muito diferente do seu primo mais velho. Eilen
White descreve assim o meio no qual nasceu este rapaz:
"Apesar da iniquidade que prevalecia, havia uma linhagem de
homens santos que, elevados e enobrecidos pela comunhão com Deus, viviam como
que na companhia do Céu. Eram homens de sólido intelecto, de maravilhosos
conhecimentos. Tinham uma grande e santa missão: desenvolver um carácter de
justiça, ensinar a lição da piedade, não somente para os homens do seu tempo,
mas para as gerações futuras. Poucos apenas dos mais preeminentes são
mencionados nas Escrituras, mas durante todos os séculos Deus teve fiéis
testemunhas, adoradores dotados de coração sincero."
— Patriarcas e Profetas, pág. 63, edição P SerVir.
Repare no que o texto bíblico diz sobre este homem: "Enoque viveu
sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém." Não tenho razões para
acreditar que ele tivesse vivido distante de Deus estes primeiros sessenta e
cinco anos da vida. Contudo, é só depois da experiência da paternidade que se
afirma: "Andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém."
Posso imaginar Enoque com o seu pequeno Matusalém nos braços, a
olhá-lo com aquele olhar
emocionado que só os pais são capazes de dar, a contemplar com
indescritível ternura o seu indefeso bebé. Enquanto o filho adormecido se
aconchega nos braços do pai, Enoque pensa na maneira como ele mesmo deve
descansar confiantemente nos braços do seu Pai do Céu.
Depois, à medida que o rapazinho cresce, o patriarca vê com tristeza
as impertinências do seu filho, e passa a lamentar os seus próprios actos de
desobediência, e compreende em perspectiva, a dor causada ao coração de Deus. A
analogia da relação do homem com o seu Deus, como de um filho com o seu pai,
assume então uma dimensão totalmente real para o patriarca Enoque, que passa a
viver inteiramente na presença da luz do olhar de Deus. Cada momento da sua
existência é passadocom o Senhor. Cada pensamento é-Lhe devotado, cada palavra
traz a identidade do seu Pai celestial.
Eilen White diz o seguinte:
"Mas depois do nascimento do seu primeiro filho, Enoque alcançou
uma experiência mais elevada; foi atraído a uma comunhão mais íntima com Deus.
Compreendeu mais amplamente as suas obrigações e responsabilidade como filho de
Deus. E, quando viu o amor do filho para com o pai; a sua confiança singela na
sua protecção; quando sentiu a ternura profunda e compassiva do seu próprio
coração por aquele filho primogénito, aprendeu uma lição preciosa do
maravilhoso amor de Deus para com os homens no dom do Seu Filho, e a confiança
que os filhos de Deus podem depositar no seu Pai celestial. O infinito,
insondável amor de Deus, mediante Cristo, tornou-se o assunto das suas
meditações dia e noite; e com todo o fervor da sua alma procurou revelar aquele
amor ao povo entre o qual
vivia." (Ibidem)
Algo para se pensar...
Finalmente, encontramos um interessante contraste entre os dois
homens. O primeiro Enoque herdou uma porção bem grande de ressentimentos contra
Deus, e acabou por os transmitir aos seus descendentes.
Já o segundo Enoque permite que a experiência da paternidade o leve a
entender, de forma mais pessoal, a sua própria relação com Deus.
Os filhos destes homens foram maldições ou bênçãos para a humanidade,
e quem determinou isto foi de alguma forma a perspectiva que cada um tinha da
sua relação com Deus.
Para mim, isto é uma constatação inquietante. Leva-me a reflectir
sobre a qualidade da minha relação com Deus, e nas implicações espirituais que
tudo isto pode ter na vida dos meus filhos.
A forma como eu oro ou deixo de o fazer, vai marcar os meus
descendentes. Se leio a Bíblia ou não, certamente também irá influenciá-los.
seus respectivos filhos, que o aprenderam e em algum momento o passaram a
repetir.
Abraão, Isaque, Jacob e David viveram aventuras espirituais que lhes
permitiram ver como as suas atitudes eram moralmente reprováveis, e Deus
valorizou isso. Cada um deles foi considerado para a posteridade como um vulto
moral. Muito por causa dos fracassos e vitórias que viveram é que nós os
olhamos com tanta reverência hoje. Mas isso só é perceptível porque vemos a sua
vida com o devido distanciamento, que só a nossa posição histórica nos permite.
Muito provavelmente, os seus filhos viram de forma bastante diferente.
Entretanto...
Não pretendo acrescentar sentimentos de culpa àqueles cujos filhos já
crescidos fizeram opções de vida distantes de Deus. Até porque quem garante que
aqueles que continuam a frequentar a igreja têm realmente o Senhor como a
verdadeira prioridade da sua
vida?
A forma como eu oro ou deixo de o fazer, vai marcar os meus descentes.
Se leio a bíblia ou não, certamente também irá influencia-los.
Meu caro amigo, minha querida amiga, você, que lê este artigo, já
olhou para a sua vida devocional sob a perspectiva do olhar observador dos seus
filhos?
Todos nós sabemos que os filhos são frequentemente imitadores dos
pais! Até nos rimos quando nos revemos nas imitações que os nossos pequenos
fazem das nossas palavras ou atitudes. Principalmente quando eles o fazem com
aquele ar grave de quem está a fazer ou a dizer alguma coisa muito séria! Já se
perguntou porque é que Isaque repetiu exactamente o mesmo erro do pai, ao
mentir sobre a verdadeira identidade de Rebeca? Ou pensou porque é que, apesar
de Jacob se ter arrependido das suas patranhas, os filhos continuaram durante
muito tempo a usar a astúcia como uma maneira de resolver os problemas? Ou
ainda porque é que David, mesmo depois de ter sido perdoado por Deus dos seus
erros, ainda assim viu a sua família desmoronar-se moralmente nos últimos anos
do seu reinado?
A resposta é relativamente simples — é tudo uma questão de exemplo!
E verdade que a misericórdia de Deus cobriu bondosa e completamente os
pecados destes homens, mas o seu exemplo foi por muito tempo observado pelos
As minhas orações frequentemente unem-se à intercessão desses pais cristãos
que continuam a pleitear com o Senhor pela salvação dos seus filhos!
Estas considerações servem, contudo, para nos fazer reflectir sobre a
influência que a nossa visão de Deus tem sobre os filhos que Ele nos deu.
Então?
Com qual Enoque quero eu parecer-me diante dos meus filhos? O que se
irou com Deus ou aquele que andou com Deus?
"Acham-se os pais na mais solene obrigação de obedecer a esta
lei, dando aos seus filhos um exemplo da mais estrita integridade (...) O temor
do Senhor é o princípio da sabedoria' (Sal. 111:10). Os que diligentemente dão
ouvidos à voz do Senhor, e com prazer guardam os Seus mandamentos, estarão
entre o número dos que verão a Deus." — Conselhos Sobre Saúde,
pág. 359.
Fonte: Revista Adventista, Fevereiro de 2009
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