quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Dois homens, um nome, dois destinos

Dois homens, um nome, dois destinos

Introdução
Sabem como se chamava o primeiro filho de Caim? Qual foi o nome da primeira cidade do mundo? Quem foi o filho de Jared? Como se chamou o pai de Matusalém? Sabem que a resposta a estas perguntas é apenas uma? Enoque...
Talvez já não se lembrassem, ou nunca tivessem reparado, mas houve pelo menos dois homens chamados Enoque na Bíblia.
Uma vista de olhos rápida pelo texto bíblico permite-nos ver algumas diferenças entre estes dois homens, que tinham em comum o mesmo nome, mas vidas diametralmente opostas.


Enoque filho de Caim
O primeiro filho de Caim recebeu o nome de Enoque que significava iniciado, dedicado. Não sabemos por que razão os seus pais lhe deram este nome, mas tenho dificuldade em acreditar que tivessem qualquer motivação piedosa. Na verdade, vamos ver que todas as decisões que Caim tomou eram, de alguma forma, uma demonstração da sua rebeldia contra Deus.
Apesar de Deus lhe ter prometido que não sofreria vingança pelo assassinato do seu irmão Abel, ainda assim ele vai entrincheirar-se atrás das muralhas de uma cidade construída por si mesmo. Esta cidade, a que ele deu o nome de Enoque, como homenagem ao seu primeiro filho, parece ter-se tornado um monumento à rebelião contra o Senhor.

Num claro desafio à garantia divina, o primogénito de Adão vai tratar de contrariar a maldição de Deus, "fugitivo e vagabundo serás na terra" (Gén. 4:12).
Numa rebelde e desesperada tentativa de 'desmentir' Deus, Caim acaba por fixar-se num determinado local. Assim surge a primeira cidade, berço de infames pecados e vícios, esconderijo de imoralidade e desafecto. O facto de Caim morar numa casa, não tornava menos miserável a sua existência. Embora tivesse abdicado do nomadismo, vivia ainda como eterno fugitivo de uma consciência culpada, ou como flagelado de um coração sem paz! Enoque, o filho de Caim, recebeu do pai um legado de rebelião contra Deus. Ao longo da vida este homem perpetuará estes mesmos valores às gerações seguintes.

A Bíblia diz: "A Enoque nasceu Irade, e Irade gerou a Meujael, e Meujael gerou a Metusael, e Metusael gerou a Lameque" (Gén. 4:18).
Note o significado dos nomes dos descendentes deste homem. O seu filho chamou-se Irade, que significa fugitivo. Por sua vez, Irade vai dar o nome de 'ferido por Deus' ao seu filho Meujael.
Além de parecer que estes homens não tinham uma relação muito feliz com a paternidade, eles possuíam ainda o péssimo hábito de transferir para os filhos todas as mágoas que nutriam contra Deus.
Imaginem os sentimentos com que cresceu o pequeno Irade. Cada vez que era chamado pelos pais, recordava-se que ele também era um eterno fugitivo do mesmo Deus que amaldiçoara o seu avô Caim!
Ou então pensem no jovem Meujael, que desde tenra idade assume o complexo de ser um ferido de Deus, um enjeitado do favor divino!
Nas gerações seguintes apareceram um assassino sem consciência, o primeiro polígamo da história e possivelmente muitos outros problemas que muito sofrimento devem ter trazido ao coração de Adão e Eva!

Enoque filho de Jarede
Sobre o mais famoso dos Enoques, a Bíblia diz o seguinte:
"Jarede viveu cento e sessenta e dois anos, e gerou a Enoque. Viveu Jarede, depois que gerou a Enoque, oitocentos anos; e gerou filhos e filhas. Todos os dias de Jarede foram novecentos e sessenta e dois anos; e morreu. Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém. Andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos; e gerou filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos; Enoque andou com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus o tomou" (Gén. 5:18 a 22).

Este segundo Enoque, aquele que vai ficar mais conhecido na História, tem uma trajectória de vida muito diferente do seu primo mais velho. Eilen White descreve assim o meio no qual nasceu este rapaz:
"Apesar da iniquidade que prevalecia, havia uma linhagem de homens santos que, elevados e enobrecidos pela comunhão com Deus, viviam como que na companhia do Céu. Eram homens de sólido intelecto, de maravilhosos conhecimentos. Tinham uma grande e santa missão: desenvolver um carácter de justiça, ensinar a lição da piedade, não somente para os homens do seu tempo, mas para as gerações futuras. Poucos apenas dos mais preeminentes são mencionados nas Escrituras, mas durante todos os séculos Deus teve fiéis testemunhas, adoradores dotados de coração sincero."
— Patriarcas e Profetas, pág. 63, edição P SerVir.

Repare no que o texto bíblico diz sobre este homem: "Enoque viveu sessenta e cinco anos, e gerou a Matusalém." Não tenho razões para acreditar que ele tivesse vivido distante de Deus estes primeiros sessenta e cinco anos da vida. Contudo, é só depois da experiência da paternidade que se afirma: "Andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém."
Posso imaginar Enoque com o seu pequeno Matusalém nos braços, a olhá-lo com aquele olhar
emocionado que só os pais são capazes de dar, a contemplar com indescritível ternura o seu indefeso bebé. Enquanto o filho adormecido se aconchega nos braços do pai, Enoque pensa na maneira como ele mesmo deve descansar confiantemente nos braços do seu Pai do Céu.
Depois, à medida que o rapazinho cresce, o patriarca vê com tristeza as impertinências do seu filho, e passa a lamentar os seus próprios actos de desobediência, e compreende em perspectiva, a dor causada ao coração de Deus. A analogia da relação do homem com o seu Deus, como de um filho com o seu pai, assume então uma dimensão totalmente real para o patriarca Enoque, que passa a viver inteiramente na presença da luz do olhar de Deus. Cada momento da sua existência é passadocom o Senhor. Cada pensamento é-Lhe devotado, cada palavra traz a identidade do seu Pai celestial.

Eilen White diz o seguinte:
"Mas depois do nascimento do seu primeiro filho, Enoque alcançou uma experiência mais elevada; foi atraído a uma comunhão mais íntima com Deus. Compreendeu mais amplamente as suas obrigações e responsabilidade como filho de Deus. E, quando viu o amor do filho para com o pai; a sua confiança singela na sua protecção; quando sentiu a ternura profunda e compassiva do seu próprio coração por aquele filho primogénito, aprendeu uma lição preciosa do maravilhoso amor de Deus para com os homens no dom do Seu Filho, e a confiança que os filhos de Deus podem depositar no seu Pai celestial. O infinito, insondável amor de Deus, mediante Cristo, tornou-se o assunto das suas meditações dia e noite; e com todo o fervor da sua alma procurou revelar aquele amor ao povo entre o qual
vivia." (Ibidem)
Algo para se pensar...
Finalmente, encontramos um interessante contraste entre os dois homens. O primeiro Enoque herdou uma porção bem grande de ressentimentos contra Deus, e acabou por os transmitir aos seus descendentes.
Já o segundo Enoque permite que a experiência da paternidade o leve a entender, de forma mais pessoal, a sua própria relação com Deus.

Os filhos destes homens foram maldições ou bênçãos para a humanidade, e quem determinou isto foi de alguma forma a perspectiva que cada um tinha da sua relação com Deus.
Para mim, isto é uma constatação inquietante. Leva-me a reflectir sobre a qualidade da minha relação com Deus, e nas implicações espirituais que tudo isto pode ter na vida dos meus filhos.
A forma como eu oro ou deixo de o fazer, vai marcar os meus descendentes. Se leio a Bíblia ou não, certamente também irá influenciá-los. seus respectivos filhos, que o aprenderam e em algum momento o passaram a repetir.

Abraão, Isaque, Jacob e David viveram aventuras espirituais que lhes permitiram ver como as suas atitudes eram moralmente reprováveis, e Deus valorizou isso. Cada um deles foi considerado para a posteridade como um vulto moral. Muito por causa dos fracassos e vitórias que viveram é que nós os olhamos com tanta reverência hoje. Mas isso só é perceptível porque vemos a sua vida com o devido distanciamento, que só a nossa posição histórica nos permite. Muito provavelmente, os seus filhos viram de forma bastante diferente.

Entretanto...
Não pretendo acrescentar sentimentos de culpa àqueles cujos filhos já crescidos fizeram opções de vida distantes de Deus. Até porque quem garante que aqueles que continuam a frequentar a igreja têm realmente o Senhor como a verdadeira prioridade da sua
vida?
A forma como eu oro ou deixo de o fazer, vai marcar os meus descentes. Se leio a bíblia ou não, certamente também irá influencia-los.
Meu caro amigo, minha querida amiga, você, que lê este artigo, já olhou para a sua vida devocional sob a perspectiva do olhar observador dos seus filhos?
Todos nós sabemos que os filhos são frequentemente imitadores dos pais! Até nos rimos quando nos revemos nas imitações que os nossos pequenos fazem das nossas palavras ou atitudes. Principalmente quando eles o fazem com aquele ar grave de quem está a fazer ou a dizer alguma coisa muito séria! Já se perguntou porque é que Isaque repetiu exactamente o mesmo erro do pai, ao mentir sobre a verdadeira identidade de Rebeca? Ou pensou porque é que, apesar de Jacob se ter arrependido das suas patranhas, os filhos continuaram durante muito tempo a usar a astúcia como uma maneira de resolver os problemas? Ou ainda porque é que David, mesmo depois de ter sido perdoado por Deus dos seus erros, ainda assim viu a sua família desmoronar-se moralmente nos últimos anos do seu reinado?
A resposta é relativamente simples — é tudo uma questão de exemplo!
E verdade que a misericórdia de Deus cobriu bondosa e completamente os pecados destes homens, mas o seu exemplo foi por muito tempo observado pelos
As minhas orações frequentemente unem-se à intercessão desses pais cristãos que continuam a pleitear com o Senhor pela salvação dos seus filhos!
Estas considerações servem, contudo, para nos fazer reflectir sobre a influência que a nossa visão de Deus tem sobre os filhos que Ele nos deu.
Então?
Com qual Enoque quero eu parecer-me diante dos meus filhos? O que se irou com Deus ou aquele que andou com Deus?
"Acham-se os pais na mais solene obrigação de obedecer a esta lei, dando aos seus filhos um exemplo da mais estrita integridade (...) O temor do Senhor é o princípio da sabedoria' (Sal. 111:10). Os que diligentemente dão ouvidos à voz do Senhor, e com prazer guardam os Seus mandamentos, estarão entre o número dos que verão a Deus." — Conselhos Sobre Saúde,

pág. 359.

Fonte: Revista Adventista, Fevereiro de 2009

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